Uma noite no Museu com “O Jabuti e a Anta”

O documentário “O Jabuti e a Anta”, dirigido por Eliza Capai e que teve estreia no Brasil nas últimas semanas, lotou o auditório do Museu Rondon, na noite do dia 20 de abril, no encerramento da Semana dos Povos Indígenas da UFMT. O filme também marcou a primeira sessão do CINEPlus – Ciclo de Cinema e Debates do Núcleo de Antropologia e Saberes Plurais e teve o apoio da Taturana – Mobilização Social, que distribui o filme no Brasil para sessões voltadas para a sensibilização social de temas caros à contemporaneidade.

O boat movie, que aborda o impacto das hidrelétricas em comunidades ribeirinhas e indígenas da Amazônia e de São Paulo, atraiu alunos e professores da UFMT, numa exibição que teve um intenso debate na sequência. O graduando em Ciências Sociais Eric Timóteo Iwyraka Kamikawa, bolsista PIBIC-AF, da etnia Kurâ-Bakairi, relatou que a história do filme mostra a realidade dos povos indígenas brasileiros frente ao Estado e ao capitalismo, em que empresários e políticos chegam sem ouvir os “donos da terra” e impõem seus projetos de progresso e desenvolvimento.

Na interpretação de Eric, o título do filme faz jus a essa realidade. A anta chega e destrói tudo. Não sobra nada nas lavouras, nas hortas. Mas que os povos indígenas não têm pressa e, com a sabedoria de um jabuti, sabem reivindicar seus direitos. Ele contou que, em 2011, morava em Manaus e chegou a participar de protestos contra o “Belo Monstro”, como os índios e ribeirinhos se referem a uma das mais agressivas obras de engenharia que coloca em dúvida o futuro de milhares de moradores da região do Xingu.

Já a antropóloga Arlene Ferreira, mestre em Antropologia pela UFMT, apresentou alguns dados de sua pesquisa de mestrado, defendida ano passado, sobre o impacto das PCHs, usinas hidrelétricas de pequeno porte, que estão sendo construídas dentro das terras do povo Manoki e de outras etnias de Mato Grosso. Apesar de sugerirem um menor impacto ambiental, essas usinas na verdade transformam vidas de comunidades inteiras que têm as suas relações cosmológicas cortadas com os seres da floresta e da água.

As PCHs são, em sua maioria, de propriedade de políticos e servem apenas para oferecer energia ao agronegócio. As comunidades indígenas não são beneficiadas e, pior, são impedidas de manter sua alimentação. “Hoje eles precisam andar mais de 80 quilômetros para pescar”, afirma Arlene. Uma situação muito parecida com a apresentada em “O Jabuti e a Anta”, que traz o relato de ribeirinhos que além de não serem beneficiados pelo “progresso” veem suas reservas pesqueiras diminuírem a cada dia.

A plateia composta em sua maioria por alunos do curso de graduação em Saúde Coletiva, parceiro do evento, também participou do debate, sendo que as falas mostraram o quanto o público ficou impactado e emocionado com a exibição do documentário de Eliza Capai. A sessão que começou às 19h se encerrou às 21h30. O evento organizado pelo NAPlus – Núcleo de Antropologia e Saberes Plurais contou com apoio do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS), do Museu Rondon de Etnologia e Arqueologia (MUSEAR) e do Instituto de Saúde Coletiva (ISC).

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